Como a máfia italiana ‘Ndrangheta usou pousadas e restaurantes no Ceará para ocultar milhões
Fruto da Operação Calábria, deflagrada em 2024 pela Polícia Federal (PF), em colaboração com a Interpol, a Polícia Internacional, o esquema da máfia italiana ‘Ndrangheta, que usou negócios no Ceará para desviar milhões em dinheiro e ocultar bens, será julgado pela Justiça Federal cearense. Oito pessoas, entre elas italianos, são réus por lavagem de dinheiro, ocultação de bens e organização criminosa, por crimes cometidos entre 2011 e 2013. A máfia teria ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) no país.
Atualmente, o processo está em fase de respostas das acusações e recentemente foi declinado da 32ª Vara para a 11ª Vara do Federal do Ceará, que confirmou e ratificou o andamento da ação nessa última quarta-feira (15).
A denúncia foi feita ano passado pelo Ministério Público Federal (MPF) e dá conta de que o investimento de italianos no Ceará saltou de R$ 16 mi em 2011 para R$ 177 mi em 2013, um aumento de mais de 1000%.
A maioria dos réus possuía endereços fixos em Fortaleza e tocava seus negócios em território cearense, que, segundo a investigação revelou, se mostrou um “território fértil” para os criminosos. Os réus se utilizavam de pizzarias, hotéis e pousadas para disfarçar a operação ilícita.
Segundo o MPF, “a investigação também observou que as organizações criminosas italianas tentam lavar dinheiro em território brasileiro, principalmente nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Alagoas, investindo em restaurantes, hotéis, pousadas e aquisição/aluguel de imóveis, além de empresas de construção”.
A investigação no Ceará iniciou após a Guardia di Finanza, agência italiana especializada em crimes financeiros e contrabando, enviar uma notícia-crime. A denúncia deu conta de movimentações suspeitas entre a Itália e o Brasil, envolvendo italianos que supostamente seria “uma das maiores organizações criminosas do mundo, originada no país europeu”.
O que fez as autoridades desconfiarem?
- Operações Inexistentes e Sonegação na Itália: Verificou-se a emissão e uso de faturas para operações inexistentes, no valor de € 5.000.000,00 (cinco milhões de Euros), pela empresa DAG Equipamentos Elétricos, da qual Domenico Franco Aquaro (falecido) e seu irmão, Berardino Aquaro (réu), eram sócios. Este fato constituiria o possível crime antecedente de lavagem de dinheiro transnacional. Berardino Aquaro chegou a responder a uma ação penal na Europa por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e crimes financeiros.
- Incompatibilidade Patrimonial: Domenico Franco Aquaro declarou rendimentos baixos na Itália (cerca de € 10.000,00 euros entre 2009 e 2011), mas realizou exportações de capitais para o Brasil em valores muito superiores. Apenas entre 2006 e 2009, ele exportou € 5.324.461,00 (5 milhões e 324 mil euros).
- Transporte de Valores Não Declarados: Em 02/03/2011, Domenico Franco Aquaro foi detido no Aeroporto de Fiumicino (Roma), vindo de Fortaleza, transportando € 41.000,00 (41 mil euros) não declarados, que foram apreendidos pela Guardia di Finanza.
Quem são os réus e quais as acusações contra eles?
- Sérgio Adriano Ribeiro Sobreira: advogado apontado pelo MPF pela denúncia como um dos líderes do braço operacional e principal facilitador da estrutura criminosa no Brasil. Ele é acusado de fornecer a infraestrutura jurídica, como próprio escritório, e métodos para a criação de empresas de fachada. Adriana ainda teria colaborado na obtenção fraudulenta de vistos para estrangeiros com antecedentes criminais. A denúncia aponta que o advogado chegou a admitir em mensagens manter contato com a “máfia”.
- José Edilson Lopes Etelvino Filho: identificado como o parceiro brasileiro central e administrador de dezenas de empresas de fachada. Ele atuava como o chamado “administrador-laranja”, supostamente sob o comando de Sérgio Adriano, detendo cotas mínimas de capital para dar aparência de legalidade a empresas italianas que serviam apenas como “contas de passagem”.
- Cesare Villone: seria ex-vice-cônsul honorário da Itália em Fortaleza, de acordo com o MPF, que comandaria um grupo responsável pela criação de empresas fantasmas para internalização de recursos ilícitos e obtenção fraudulenta de vistos. Ele teria utilizado o endereço do Vice-Consulado Italiano em Fortaleza para registrar 21 empresas, objetivando conferir credibilidade ao esquema.
- Maurizio Villone: irmão de Cesare Villone, com histórico criminal na Itália por associação criminosa. Ele participava de empresas de fachada no Brasil para internalizar capital e é acusado de utilizar a estrutura empresarial do irmão para lavar dinheiro de ganhos obtidos com crimes cometidos na Europa.
- Luigi Mastrangeli: empresário do ramo imobiliário, classificado como personagem central do esquema. É acusado de utilizar empresas (como INVIM e SULAMÉRICA) para realizar movimentações financeiras atípicas, triangulação e ocultação de recursos de origem ilícita vindos do exterior.
- Sérgio Martucci: sócio na empresa A M Negócios Imobiliários, que foi indiciado por utilizar essa e outras empresas para a prática reiterada de lavagem de dinheiro. Realizou diversas transferências de capitais para o Brasil em valores incompatíveis com sua renda declarada na Itália.
- Berardino Aquaro: irmão e parceiro de Domenico Franco Aquaro, possuía antecedentes criminais na Europa por formação de quadrilha e crimes financeiros. No Brasil, foi acusado de constituir empresas (como a Pousada Itália Beach) para praticar a mesclagem de recursos lícitos e ilícitos, facilitando a lavagem de dinheiro.
- Aurélio Vincenzo Bellantoni: Filho de um membro da máfia ‘Ndrangheta, é acusado de utilizar empresas de fachada (como a Pizzaria Viva La Pizza) para dissimular e ocultar recursos ilícitos. Segundo a denúncia, suas empresas não possuíam atividade econômica real ou funcionários, servindo apenas para o trânsito de capitais dentro da rede facilitadora do esquema.
Em resposta ao Diário do Nordeste, as defesas que retornaram os questionamentos negaram o envolvimento de seus clientes. Sérgio Adriano Sobreira, por exemplo, réu e também advogado da própria causa, negou ser “advogado de máfia” e disse que nunca admitiu ter contato com mafiosos, e que só trabalhou com italianos para ajudá-los a conseguir vistos e abrir empresas em Fortaleza.
Diário do Nordeste
