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40 anos de João Paulo II na Terra da Luz: memória e legado
9 de julho de 2020 às 06:50
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Aeroporto de Fortaleza, 9 de julho de 1980. A bordo de um boeing presidencial, às 9h42 de uma quarta-feira, Papa João Paulo II, hoje santo da Igreja Católica, tocava, pela primeira e única vez, o chão do Ceará, que além dos pés firmes, também recebeu um beijo do religioso, gesto de humildade praticado.

Cerca de 120 mil fiéis o esperavam no Castelão, onde aconteceu o 10º Congresso Eucarístico Nacional, que o trouxe oficialmente ao Brasil a convite do então arcebispo da Capital, Dom Aloísio Lorscheider. A vinda do Sumo Pontífice, há exatos 40 anos, fortaleceu a busca pelo Divino, renovou a fé dos cearenses e ainda repercute na memória cristã.

À época, a cidade passou por requalificações estruturais para a visita do religioso, como a entrega da primeira etapa da BR-116 e a ampliação das arquibancadas do estádio de futebol, inaugurado sete anos antes. As ruas, além de limpas e pavimentadas, tinham muros pintados e mais de 500 faixas com mensagens de boas-vindas, mas, sobretudo, registravam a intensa movimentação de rostos felizes e emocionados por causa de João Paulo II.

O desejo de reverenciá-lo era tanto que uma multidão já se aglomerava em frente à sede do evento na madrugada do dia anterior. A Secretaria de Comunicação do Governo chegou a distribuir um folheto com os “10 mandamentos para ver o Papa”. Devido à euforia para encontrar um lugar mais próximo ao altar, uma das orientações, a de “não correr, não empurrar e nem criar tumulto”, acabou sendo negligenciada após a abertura dos portões. O episódio, que deixou quase uma centena de feridos, resultou também na morte de três mulheres, mesmo com o reforço do esquema de segurança.

Dentro do Castelão, completamente lotado, o Papa foi recepcionado por leigos e sacerdotes em uma única voz: “João, João, João, você é nosso irmão”, exclamavam. O cantor Luiz Gonzaga precedeu a homilia de Sua Santidade entoando a canção-poesia escrita pelo padre Gothardo Lemos – Obrigado, João Paulo II. A música, ritmizada pela sanfona do Rei do Baião, agradecia a presença e reforçava a semelhança do santo com Cristo. “João Paulo II, de Deus, grande graça. O povo te abraça, em ti, vê Jesus. Feliz te agradece por nos visitares, e a Cristo adorares, na terra da luz”, diz o refrão.

Partilha

O Congresso Eucarístico Nacional trazia à luz o tema “Para onde vais?”, o qual João Paulo II se debruçou durante o sermão. Segundo ele, todos buscam a plena realização pessoal, que está no altíssimo. “O nosso coração procura a felicidade e quer experimentá-la num contexto de amor verdadeiro. Pois bem, o cristão sabe que a satisfação autêntica desta aspiração só se pode encontrar em Deus, a cuja imagem o homem foi criado”, refletiu. Ao fim da homilia, o Papa intercedeu pelo fim dos abismos sociais no País em favor do bem viver.

“Que esta Nação possa prosperar sempre espiritual, moral e materialmente, animada com aquele espírito fraterno, que Cristo veio trazer ao mundo. Desapareçam ou se reduzam gradativamente ao mínimo, no seu interior, as diferenças entre regiões dotadas de particular bem-estar material e regiões menos afortunadas. Desapareçam a pobreza, a miséria moral e espiritual, a marginalização, e que todos os cidadãos se reconheçam e se abracem como autênticos irmãos em Cristo”.

A mensagem permanece viva na memória do padre Gilson Marques Soares, 72, atualmente pároco da Igreja de Nossa Senhora das Graças, no bairro Manoel Sátiro. “Ele deixou para nós essa força maior da sua pessoa, da sua palavra, da sua espiritualidade, motivou e mexeu com o coração de todos. Ele era um Papa da comunicação, da simplicidade”, pondera o vigário, que auxiliou João Paulo II nos dois dias em que ele esteve no Ceará.

Quando Gilson foi escolhido para ser o diácono, aquele que acompanha o sacerdote desde a procissão de entrada aos ritos finais da celebração eucarística, tinha apenas três anos de ordenação. O comportamento do Papa, ainda que sutil e reservado, trouxe inúmeros efeitos. “Ele não falava muito quando passava. Acenava, abraçava de longe, mas só em olhar pra gente, transformava a nossa vida. Ele mudou para melhor a religiosidade do nosso Estado”, relata.

O contato físico com o Sumo Pontífice também ocorreu na Residência Episcopal, no Seminário da Prainha, onde o Papa ficou hospedado. “Eu morava lá no Centro Vocacional com 20 seminaristas. Lembro que ele quis celebrar uma missa de manhã, bem cedo, por volta de 6h, e eu fui convidado também para ajudar. Tem até uma placa que diz ‘Papa João Paulo II celebrou uma missa nesta capela'”.

Lembranças

As demonstrações de afeto, representadas pelos olhares atentos, acenos e gritos, tiveram ainda outros contornos. A passagem do Papa fez a população investir em lembranças típicas e artesanais do Estado.

“Deram uma jangada e não tinha como ele levar para o Vaticano. Tinha peixe, tapioca, bolinho, livro, bilhete… Contam que até um jumentinho foi dado”, detalha padre Gilson.

Para além dos presentes materiais, João Paulo II recebeu, acima de tudo, o amor do povo. De todas as faixas etárias, gêneros e classes sociais. O agora empresário Osterne Feitosa Neto tinha dois anos de idade quando foi com a tia prestigiar a ilustre visita. Ele lamenta que as memórias da ocasião sejam poucas. Mas uma entrevista à TV Verdes Mares em 1980 documentou o momento: ao repórter, ele disse que pediria ao Papa “um brinquedo, um avião grande para voar com ele para o céu”.

Quarenta anos depois, a súplica seria coletiva. “Hoje, eu pediria paz para o mundo, que nos livrasse dessa pandemia e que a vida pudesse voltar ao normal”, comenta Osterne. A prece, aliás, passou a ser repetida diariamente em suas orações, que sempre invocam a intercessão do Papa, a quem admira desde a infância. “Cresci com muita fé nele. Todas as vezes que ele aparecia na televisão, celebrando missa ou fazendo orações, eu o beijava pela tela”, recorda.

Emoção

Ao resgatar e descrever as cenas “ainda vivas na mente e no coração”, Graça Lima, 62, embarga a voz e se rende à emoção.

“Eu choro toda vez que me lembro. Eu vi um Papa. A gente cantava, vibrava e até chorava de muita alegria”. Professora e catequista de Itapipoca, ela viajou até Fortaleza de carro para cumprimentar o Sumo Pontífice, ainda que de longe, da arquibancada inferior onde ficou durante a missa no Castelão.

Quem não conseguiu assistir presencialmente os compromissos do Papa, no entanto, acompanhou a transmissão do Congresso Eucarístico pela mídia. Nem mesmo a falta de energia elétrica ou os ruídos no rádio de pilha, impediram a funcionária pública Nilza Menezes, 46, de ouvir com a família a mensagem de fé de João Paulo II.

“A gente morava em uma fazenda chamada São José, em Apuiarés, e cuidava de animais e de plantações, mas nessa hora, todo mundo parou. Só se falava no Papa em todas as emissoras, só que devido à pilha, o rádio não pegava bem. Às vezes, a gente ouvia mais o chiado do que a própria transmissão, mas eu lembro que fiquei muito entusiasmada com a presença dele. Ficou marcado para sempre na minha vida, principalmente quando ele beijou o solo do nosso Ceará”, afirma.

O Papa polonês faleceu em 2 de abril de 2005, aos 84 anos. Foi canonizado no dia 27 de abril, no Domingo da Divina Misericórdia, quando a Igreja Católica o reconheceu como São João Paulo II, que curou uma lesão cerebral grave em Floribeth Mora. A costarriquenha testemunhou ter ouvido a voz dele dizendo: “Levante-se, não tenha medo”. Gracinha, como é chamada a catequista, orgulha-se de ter conhecido o santo. “Sempre digo para as minhas filhas que eu vi pessoalmente um santo em vida, só não o toquei porque não podia. Ave-Maria, é muito gratificante”, celebra.

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