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Como a agroecologia virou o futuro da agro do Ceará e mudou a vida de produtores rurais

5 de julho de 2026 às 04:03
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O simples desejo de plantar frutas para consumo próprio em uma casa de praia em Trairi, na Região Metropolitana de Fortaleza, trouxe uma reviravolta à vida de Simone Camargo.

“Não tinha como plantar nada. Era uma terra muito degradada, muito ácida, devido ao uso da monocultura. Era uma antiga fazenda de algodão na década de 1970. Depois passou a ser uma monocultura de caju. E, por ser muito próximo ao mar, era um solo degradado, um solo de duna”, lembra.

A paisagista precisou então adotar técnicas de agroecologia para revitalizar o solo e tornar o ambiente fértil. Uma década depois, a pequena produção se expandiu e se consolidou como a Fazenda Coringa, de 39 hectares.

“Eu sofria muito com a falta de alimentos frescos. Tudo vinha de Fortaleza, então o alimento chegava quase danificado. Então começou como um projeto pequeno para o meu consumo, aí foi escalando e, com a entrada da agrofloresta, tomou uma capacidade de produção muito maior do que eu imaginava”, comenta.

 

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Legenda: Arquivo pessoal
Foto: Fazenda Coringa tem produção agroecológica em Trairi.

 

A comercialização ocorre em cidades próximas e deve chegar a Fortaleza nos próximos meses. A fazenda investe no beneficiamento dos produtos para ofertar itens de maior valor agregado, como polpa de açaí e frutas desidratadas, mas ainda sofre para chegar à sustentabilidade financeira sem financiamento.

O Ceará vive uma tendência de crescimento de sistemas agroflorestais (SAFs), seguindo o princípio de diversificação da produção, destaca a Secretaria do Desenvolvimento Agrário estadual.

Não há, entretanto, um levantamento consolidado que certifique o número total de unidades produtivas que adotam esse sistema. Segundo a pasta, as ações de agroecologia evitaram a emissão de quase 3 mil toneladas (2.845.758 kg) de gases de efeito estufa ao longo de 20 anos.

“O Projeto Sertão Vivo terá 72 municípios diretamente beneficiados, com investimento em sistemas agroflorestais para 23 mil famílias e 21 mil hectares sob gestão resiliente ao clima”, aponta a pasta.

GERAÇÃO DE RENDA NA AGRICULTURA FAMILIAR

A alta rentabilidade dos produtos frutos da agrofloresta pode impulsionar a geração de renda na agricultura familiar, explica Francisco José Tabosa, professor de economia agrícola da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O ticket médio de produtos orgânicos e oriundos de práticas sustentáveis tende a ser elevado. Além disso, a produção escalonada segue curva de crescimento ascendente ao longo do tempo.

“As produções tradicionais em grande escala têm rentabilidade, só que vão degradando o solo, e a tendência no médio e longo prazo é essa produção ser prejudicada. Ao contrário do sistema agroflorestal, que vai ter uma maior rentabilidade em médio e longo prazo”, explica.

No planejamento de desenvolvimento agrícola, os sistemas devem receber prioridade devido à instabilidade climática, destaca o especialista.

 

Estamos tendo problemas como o El Niño, que está preocupando bastante o setor de seguros e crédito rural para a safra 2026-2027. E isso é uma consequência dos desmatamentos, das queimadas e da produção em escala.
Francisco José Tabosa

Professor de economia agrícola

 

A migração para o SAF fez crescer três vezes a produção de frutíferas no Sítio Coqueiro, no assentamento Maceió, em Itapipoca, no interior do Ceará. Pés de banana, abacaxi e abacate foram incorporados à araruta, planta nativa.

“A gente já trabalhava com a agroecologia, só que ficou uma forma mais organizada. Agora, a gente conseguiu colocar em linhas, o que não estava na nossa prática”, lembra Rojane Santos, uma das responsáveis pela produção.

O sistema foi instalado em fevereiro de 2025 e trouxe resultados financeiros positivos em menos de um ano.

“A gente não conhecia ainda a questão da cobertura vegetal. Foi muito relevante, porque a gente não precisa mais estar comprando adubo. A própria cobertura vegetal tem esse papel, e deixa o solo mais fresco”, explica Rojane.

 

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Legenda: Rojane Santos adotou práticas agroflorestais em sua produção há um ano.
Foto: Cetra/Pedro Mairton.

 

APOIO AOS NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS

Um dos desafios da implantação de agroflorestas é a sustentabilidade financeira dos negócios durante o período de maturação das diferentes culturas e da transição para técnicas agroecológicas.

O Plano de Desenvolvimento Sustentável 2030, elaborado pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), aponta que o apoio a sistemas agroflorestais é uma importante estratégia de produção de alimentos e reflorestamento. 

O planejamento destaca que o Sistema Nacional de Fomento, por meio de agências regionais, e Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) podem apoiar o desenvolvimento de ‘assentamentos verdes’.

 

O acesso ao crédito foi um divisor de águas no projeto agroflorestal conduzido por Enéas Braga Júnior em Aiuaba, no Sertão dos Inhamuns cearense. Ele nutre há alguns anos o desejo de transformar o sítio da sua família em uma propriedade produtiva.

A fazenda de 36 hectares será reflorestada com espécies nativas do Brasil, como aroeira, sabiá, baraúna e catingueira. Futuramente, haverá criação de abelhas para a produção de mel.

 

O projeto foi escolhido pela linha do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) voltada para a implantação de sistemas agroflorestais e recuperação de áreas degradadas.

 

“O reflorestamento tinha valores estratosféricos para a minha realidade. Eu vou começar a pagar esse crédito daqui a dez anos, e daqui para lá as abelhas já darão fruto. Nada impede também de ampliar o cultivo e implementar outras culturas, como tâmaras e mogno africano”, explica.

Enéas ressalta que todo o processo de plantio respeita a plantação nativa que já existe na fazenda. O produtor investe também na capacitação dos trabalhadores envolvidos para adaptar as práticas utilizadas.

“Tudo é feito muito empiricamente, ‘como ouviu o pai falar, o avô fazer’, então estamos tentando levar as técnicas, o que está documentado”, lembra.

José Enéas foi um dos milhares beneficiados pelo Pronaf nos últimos anos. Em 2025, o crédito para agricultores familiares que atuam em atividades de base agroecológica no Ceará mais que quadriplicou. Foram atendidas 14.849 operações, com movimentação de R$ 206 milhões.

Para 2026, o Banco do Nordeste (BNB) prevê a celebração de quase 13 mil financiamentos, que devem mobilizar R$ 423 milhões.

 

A expansão, da agricultura familiar ao agronegócio, é uma parte fundamental da agropecuária de baixo carbono, destaca Mario Eduardo Fraga da Silva, gerente da Célula de Gestão Ambiental do BNB.

 

“Sistemas agroflorestais são parte essencial da agropecuária de baixo carbono, pois atuam fortemente na reversão das causas da mudança do clima, ao capturar carbono atmosférico no solo e, principalmente, nos troncos e raízes das árvores. Contida a questão dos desmatamentos, o setor agro é praticamente o único capaz de reverter efeitos da mudança do clima”, comenta.

O programa Recaatingar, promovido pelo BNB e BNDES, deve investir outros R$ 60 milhões na recuperação socioprodutiva de terras degradadas na Caatinga.

O objetivo é recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas até 2045. O Ceará tem diversos municípios com prioridade alta para a chamada pública, como Abaiara, Barreira, Hidrolândia, Jaguaretama e Tabuleiro do Norte.

PILAR DO DESENVOLVIMENTO NO INTERIOR DO CEARÁ

A adoção de sistemas agroflorestais é um dos pilares do desenvolvimento sustentável nas cidades do interior cearense. O pesquisador Narciso Mota, doutor em Desenvolvimento e Meio Ambiente, elenca a importância das práticas agroecológicas para o desenvolvimento sustentável das cidades conhecidas pela vocação agrícola.

“São tecnologias dentro da ciência agroecologia que vão fazer com que a gente tenha sustentabilidade no solo, na água. Não envenenando o solo, a água, o ar e o alimento das pessoas pelo agrotóxico, principalmente mantendo um solo vivo, evitando a erosão. Precisa ter uma vegetação nativa”, explica.

O especialista ressalta que há projetos significativos em municípios cearenses para a consolidação dos sistemas agroflorestais, mas é necessário expandi-los para grandes produções.

“Hoje, o sistema agroflorestal é a tecnologia mais importante dentro da nossa agricultura. E não é moderna; isso os nossos nativos ancestrais na Amazônia já faziam, faziam isso aqui na Caatinga. Todas as florestas do mundo inteiro podem ser feitas as técnicas. Podem ser feitas em qualquer bioma do mundo inteiro”

De mãe para filha, as técnicas agroecológicas foram transmitidas e deram suporte à criação do quintal agroflorestal de Elisabete Alves, também em Itapipoca.

 

Elisabete Alves herdou da mãe conhecimentos para gerir quintal produtivo no Assentamento Maceió.

Legenda: Elisabete Alves herdou da mãe conhecimentos para gerir quintal produtivo no Assentamento Maceió.
Foto: Arquivo Pessoal.

 

“De alguma forma, a gente já seguia a agroecologia, mas precisava diversificar mais. Eu plantava só batata, feijão e milho. Aí chegava um certo momento que tirava tudo e ficava sem nada o terreno. Agora é diferente, tiro uma colheita, mas fica outra”, conta Elisabete.

 

Hoje eu tiro mais de um salário mínimo. Me deu condições de comprar um medicamento, melhorar a minha casinha. Há alguns anos, era inviável pensar nisso. Em vez de sair minha terra, onde eu tenho condições de produzir, e ir para a cidade atrás de um emprego, eu fico, gero meu próprio alimento e ainda consigo doar para a comunidade.
Elisabete Alves

Responsável por quintal agroflorestal no Assentamento Maceió

 

A produção inclui milho, feijão, batata-doce, pimentão, banana e plantas medicinais. A maior produtividade permitiu aumentar a renda mensal para as três famílias envolvidas, já que o excedente é comercializado em feiras agroecológicas mobilizadas pelo Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra).

Formada em técnica de enfermagem, Elisabete decidiu permanecer na produção agrícola e garantiu autonomia financeira.

Para Elisabete, a adoção de tecnologias sociais é importante para vislumbrar o desenvolvimento das próximas gerações no campo. “O trabalho rural não precisa ser sofrido como na época dos nossos pais. Não precisamos passar o dia no sol quente capinando, mas alguns passam porque não têm acesso”, comenta.

Diário do Nordeste